Um dia regressava a pé do dentista com o meu filho Leonardo, quando ele me disse: Tu és o Sócrates. Fiquei surpreendido. Estar-me-ia a acusar? Talvez se sentisse enganado pelas minhas promessas de pai no dentista: Não vai doer nada. Talvez estivesse zangado com as minhas falhas no pagamento da sua semanada. Mas não, não era esse Sócrates. Ele referia-se ao filósofo. Senti um sorriso nascer, o meu peito inchou ligeiramente e uma expiração saborosa expressou a minha satisfação. Deliciado, anotei mentalmente: um dia partilho este momento no blog. Chegou esse dia.

Muito com pouco

Comecemos pelo princípio. Há muitos meses atrás o Leonardo fez nove anos e, como sempre, eu e a Carla preparámos-lhe uma festa ao nosso jeito. Talvez por termos aprendido na Candeia a fazer muito com pouco, sempre gostámos de aniversários caseiros em que a animação está por nossa conta. Gostamos de inventar jogos.

Por exemplo, num dos anos em que o tema era o jogo Plants vs Zombies a nossa sala transformou-se num campo de batalha. As crianças encarnaram as plantas e os adultos os zombies. À medida que nos atingiam com centenas de bolas de papel, nós os zombies íamos perdendo partes do corpo, ou seja proteções e adereços. Foi um sucesso tremendo que culminou numa batalha épica contra o Dr. Zomboss – a Carla às minhas cavalitas e eu escondido debaixo de uma gabardine. Perdemos miseravelmente.

Para além dos jogos gostamos que o grupo fique a dormir cá em casa. Como todas as boas festas do pijama isso inclui discoteca, jantar e um filme. No caso das festas da Sofia, a discoteca é o ponto alto. Uma hora interminável de clássicos como Já passou ou a Dança do Quadrado, dançados à séria debaixo de uma bola de espelhos.

O dia termina com um arraial de crianças espalhadas por colchões de campismo e connosco derreados, deitados um ao lado do outro, a sussurrar: pais unidos, jamais serão vencidos.

It’s my party, and I’ll cry if I want to

Na festa dos nove anos, eu decidi apresentar um pequeno espetáculo de palhaço. Foi um desastre! Um belo fracasso ao estilo dos palhaços que terminou com o Leonardo a chorar. Talvez estejas a pensar: se o meu pai fizesse de palhaço na minha festa de nove anos em frente a todos os meus amigos, eu também chorava. É porque não te lembras do que é ter nove anos. Isso é aos onze!

Na verdade eles ficaram tão excitados, mas tão excitados, que quando eu perguntei quem era o aniversariante, todos se puseram a gritar: sou eu, sou eu – e invadiram o palco. Nesse momento o Leonardo gritou: Estão a estragar a minha festa! Paralisei por uns momentos. Internamente estava preso entre o palhaço em palco para quem tudo é interessante e o pai em casa perturbado pelo choro do filho no seu aniversário. Tirei o nariz vermelho e decidi ter uma conversa com as crianças.

Vá, não foi bem uma conversa, foi mais um sermão. Tentei explicar-lhes como era importante não usurparem o lugar do aniversariante. Eles estavam sentados no sofá e eu de pé no palco. À medida que ia falando, o bando de miúdos excitados foi-se transformando num acumulado de miúdos sorumbáticos. Quando o Leonardo finalmente se acalmou, eu terminei o espetáculo e cantámos-lhe os parabéns. Eles pareciam anestesiados. Senti-me muito triste nesse momento. Como muitas coisas na vida, também isso passou. E ao chegar o momento da discoteca, a animação já estava de novo ao rubro. Entretanto eu fiquei e continuo a refletir sobre a dificuldade que tenho em conter a excitação das crianças sem as reprimir.

Tu és o Sócrates

Nem todos os momentos se propiciam a boas conversas com os meus filhos. Quando eles, por exemplo, chegam a casa depois da escola é impossível ter um diálogo com mais de duas frases.

– Como foi o dia hoje na escola?
– Bom.
– Bom como?
– Assim, bom.

As melhores conversas temo-las ou mesmo antes deles adormecerem, ou quando estamos a andar pela rua. Ao regressarmos do dentista surgiu um desses preciosos momentos. A dada altura, já não sei bem porquê, lembrei-me do aniversário:

– Como é que te estavas a sentir no momento em que fugiste da sala durante a tua festa de anos?

Ele tentou responder o melhor que soube. Eu, entusiasmado comecei a disparar perguntas:

– Porque é que te sentiste triste quando estavam a estragar a tua festa?
– Como é que sabes que estavam a estragar a festa?
– O que é que sentes no corpo quando estão a estragar uma coisa importante para ti?

A minha curiosidade estilo criança na idade dos porquês foi abruptamente travada quando me acusou:

– Tu és o Sócrates.

Fiquei intrigado. Então explicou-me: És como o filósofo grego, não paras de fazer perguntas.

Sentir-me pai

Sentir que os meus filhos estão a crescer é das sensações que mais orgulho me traz enquanto pai. É uma sensação de auto-reconhecimento e auto-validação muito prazerosa. Não escrevo a palavra orgulho de forma leviana. Confesso que andei para aqui a tentar encontrar uma palavra mais consentânea com a minha culpa católica, mas não estaria a ser autêntico. Se és pai ou mãe, talvez a conheças quando um dos teus filhos recebe uma boa nota, ou quando realiza um feito no desporto que pratica. Eu sinto-a especialmente nestas conversas em que eles me surpreendem com uma observação inteligente. O meu lado intelectual fica encantado e eu sinto-me pai.

* Este artigo foi revisto pelo Leonardo que o achou giro e autorizou a sua publicação. A fotografia é da autoria da Sofia.

 

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About Rodrigo Dias

Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim.

Um dia, durante um campo de férias, decidi que queria ser mais extrovertido. Então comecei a fazer as coisas que os extrovertidos faziam: falar à frente de muitas pessoas, abordar miúdas que me intimidavam e tentar entrar em discotecas metendo conversa com os porteiros. Maior parte do que tentei não correu assim tão bem, mas eu não desisti.

Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno que me ajuda a perceber quem sou e o que quero.

Hoje, tenho trinta e cinco anos, sou casado e pai de duas criaturas maravilhosas. Sou o responsável pelo bem-estar e produtividade de uma equipa com mais de setenta e cinco pessoas. Sou estudante de psicoterapia somática em Biossíntese no CPSB. E como alguém há pouco tempo comentou, sou um introvertido corajoso.