O meu filho já é um homem!, declarou o meu pai quando, durante uma discussão à mesa, eu contrapus os seus argumentos de uma forma eloquente. Eu tinha dezanove anos. Essas palavras infiltraram-se nos poros da minha pele, penetrando fundo nas camadas do meu ser e alojaram-se na minha alma. Apesar de já ter parado de crescer em altura, devo ter ganho uns milímetros nesse dia. Não acredito que o meu pai tivesse consciência do efeito das suas palavras. Saíram-lhe porque o coração falou mais alto do que a vontade de ganhar a discussão. Provavelmente nem se lembra de me as ter dito. Mas eu lembro-me. Lembro-me como se tivesse sido ontem.

Eu sinto diariamente, no meu trabalho como psicoterapeuta, o impacto que as palavras, os gestos e os olhares, e muitas vezes a sua ausência, tiveram e têm na vida dos meus clientes. Os pais têm o poder de alojar imagens, significados e posturas nas almas dos filhos. Para o bem e para o mal. Apesar de lidar com esta realidade, compreendo que na relação com os meus filhos eu tenho pouco controlo sobre este efeito. O conteúdo que afeta os filhos emerge do mundo das emoções. E essas são mais rápidas que as razões. Quando me apercebo do olhar crítico que acabei de lançar sobre o meu filho, já é tarde demais.

Ou seja, eu não sei quais serão as pequenas pérolas de sabedoria que os meus filhos irão reter da convivência comigo, mas sei de algumas que eu gostaria de lhes oferecer. 

Não há nada de errado contigo

Eu sei que às vezes as coisas não correm bem e tu sentes que a culpa é tua. Perdes um jogo, partes um copo, recebes uma repreensão. Sentes culpa. Descontrolas-te, zangas-te contigo e zangas-te com os outros. Parece que está tudo perdido.

Outras vezes gozam contigo. Há alguma coisa que não sabes ou não consegues fazer.  Sentes que te põem de parte. Para os outros parece fácil, mas para ti é difícil. Sentes vergonha e escondes-te, às vezes atrás da tua cama, às vezes atrás de uma mentira. Não queres que te vejam, assim, frágil.

É difícil sentirmos que somos diferentes. É difícil sentir que fracassamos. Mas é só isso, é sentir. Não há nada para mudar. Não há nada de errado contigo. Não te critiques. Não te compares. Porque tu és incomparável. Não há ninguém igual a ti no Universo.

Primeiro sê, depois faz e só então tem

Quando um anúncio te impingir a ideia de que podes ser quem tu és, desde que tenhas um determinado carro, ou que um perfume te vai tornar atraente, não acredites. É a maior falácia da humanidade. Há uma tendência para acharmos que existe um atalho para a felicidade: tem o que as pessoas felizes têm, faz o que for necessário para ter essas coisas e serás feliz. Resultado: serás alguém que faz coisas para ter coisas. Acredita, isso não traz felicidade a ninguém, traz ansiedade.

Experimenta primeiro ser. Ser quem tu já és. Não te preocupes, ninguém sabe quem é, porque todos somos muitas coisas. Seres quem tu já és, é confiares no que sentes. Age a partir daí. Experimenta fazer coisas. Percebe se te trazem um prazer duradouro. Se não trouxerem, experimenta fazer outras coisas. Vai experimentando, e vai deixando de fazer o que descobres que não és. Irás surpreender-te com o que és. 

Cuidado com o prazer da gratificação instantânea. Sabe bem, mas sabe a pouco. Aponta para uma vida duradoura e plena. Só há uma forma de lá chegar. Parte da tua descoberta de quem és e não do que os outros gostariam que tu fosses. Inclusive os teus pais.

Partilha quem és

Eu sei que é difícil falares sobre ti, sobre o que pensas e o que sentes. Sentes-te vulnerável. Como se estivesses a abrir a porta de casa aos ladrões. Talvez estejas, mas também estás a abrir a porta de casa aos amigos, alguns dos quais ainda não conheces. A maior parte de nós tem medo dos desconhecidos. O que faz do mundo um lugar cheio de desconhecidos com medo uns dos outros. Os adultos são peritos em ter medo uns dos outros. Fica mesmo mais difícil fazer novos amigos. Já não basta uma bola de futebol. 

Não descures o medo, mas ainda assim partilha o que te vai na alma e o teu mundo vai-se tornar maior. Quando verbalizas o que pensas, irás ouvir-te e poderás sentir como te afetam as tuas próprias palavras. Essa escuta é uma incrível aferição da tua realidade interna. Será mais fácil distinguir o que é verdadeiro do que é imaginado. Quando verbalizas o que pensas, os outros irão escutar-te e irão aproximar-se ou afastar-se. Se partilhares a verdade, as tuas relações também se tornarão mais verdadeiras e há poucas coisas na vida tão boas como verdadeiras relações de amizade.

Se não tiveres a certeza sobre quem está à tua porta, se são ou não ladrões, podes recorrer a mim. Eu irei sempre proteger-te, não importa o que acontecer ou o que tu fizeres.

Se gostaste deste artigo, junta-te ao grupo de pessoas que acompanham de perto o meu blogue. Clica neste link e deixa-me o teu nome e email. Para te agradecer a confiança enviar-te-ei gratuitamente o meu conto sobre Black e a sua escolha imperdoável.

About Rodrigo Dias

Como muitas das melhores coisas na vida, não estava planeado eu nascer. Apareci no mundo assim de surpresa e tive a sorte de ter uma família maravilhosa à minha espera. Cresci rodeado de amor, de valores e de experiências enriquecedoras. Como diria o Tim Minchin: “He’s a victim of his upper-middle class upbringing”

Cresci introvertido. Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim. Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno me ajuda a perceber quem sou, o que quero e para onde vou.

No caminho de me tornar pessoa sempre refleti sobre como não me tornar numa formiga humana. Dessa reflexão nasceram muitos projetos. O mais importante foi criar uma família com a Carla e tornar-me pai de dois mestres sábios que me trouxeram a compreensão de que ainda há muito por descobrir sobre mim próprio. Outro projeto importante foi decidir tornar-me terapeuta, depois de uma carreira profissional no mundo do desenvolvimento de Software. No mundo da terapia as minhas maiores inspirações são a Biossíntese, uma psicoterapia corporal desenvolvida por David Boadella, e o mundo dos palhaços, no qual tenho desenvolvido o projeto Oficina Clown com o meu grande amigo Ricardo Lapão.