Há mais de um mês que não publico nada no blog e tenho dado por mim a pensar: será que alguém sente falta? Logo em seguida surge uma caótica miríade de pensamentos:

o que é que interessa às pessoas se eu escrevo ou não? estou a escrever isto porque quero que tenham pena de mim, preciso de atenção, escrevo para mim ou para os outros? porque é que eu escrevo? quero que gostem de mim, ainda tenho alguma coisa para partilhar? tenho de me esforçar mais, devia escrever melhor e com mais frequência, e se não me apetece? e se só me apetece para receber shots de gratificação instantânea?

Socorro! Pensar neste assunto é como agitar-me em areias movediças, só me afundo cada vez mais.

Há um emaranhado de sensações, emoções e ideias que surgem quando penso que estou em falta. Sinto que não estou a ser suficiente e dou por mim a tentar fazer coisas para preencher essa falta. Como por exemplo, escrever este artigo.

Complexo de inferioridade

Carl Jung descrevia o conceito de complexo como um nó de sentimentos e crenças no inconsciente, detetado indiretamente através de comportamentos enigmáticos. É exatamente como eu sinto este emaranhado em torno do tema eu não sou suficiente. Um nó complexo de inferioridade, que eu não consigo desfazer.

Os comportamentos enigmáticos multiplicam-se, se é por não escrever no blog, também é porque estou sentado numa aula e não tenho nenhuma pergunta brilhante para fazer, ou porque os meus filhos não falam inglês, nem saber fazer uma roda sem mãos, nem com mãos, na verdade. Este nó que me acompanha permeia-se por todas as áreas da minha vida.

Estou a dramatizar… Lá está o raio do complexo a intrometer-se no artigo. Na verdade, o nó nem sempre está lá. Às vezes, eu relaxo e torno-me suficiente. Sinto isso quando estou só com a Carla e com os nossos filhos, quando não há mais ninguém com quem nos comparar. Sinto isso frequentemente na Premium Minds, onde estou seguro e rodeado de pessoas de quem gosto muito. Sinto isso quando estou a dar sessões de psicoterapia e estou completamente focado no outro e nas suas necessidades. Sinto-me suficiente em muitas ocasiões.

Parece-me que o complexo, ou pelo menos os seus efeitos, desaparecem quando estou verdadeiramente em relação com quem me rodeia.

Super charge your baby

Vou dar um salto. A ver se não te perco. Há pouco tempo li o artigo “Super charge your baby” na Scientific American. O autor discutia a validade científica da panóplia de brinquedos que anunciam milagres na educação das crianças: DVDs que prometem promover a leitura desde bebé, anéis de dentição que incentivam o desenvolvimento oral, ou dispositivos intravaginais que dão música ao bebé para que ele aprenda a vocalizar desde o útero. Reconheci como é fácil deixar-me encantar pelas flautas dos publicitários que ativam a minha ansiedade de pai. Estes produtos, com as suas afirmações ambiciosas pseudo-científicas, exploram as profundezas da insegurança de que os meus filhos não vão ser suficientes.

Nunca deste por ti a correr no meio da manada? Como se fôssemos antílopes a fugir não sei do quê, e a ir não sei para onde. Um de nós assustou-se e saiu disparado. Nós lá fomos a correr sem querermos ficar para trás, não fosse revelar-se a nossa morte.

E é exatamente o que eu sinto quando não escrevo um artigo há mais de um mês:

Será que estou a ficar para trás?

Estar presente

Quanto mais me envolvo na psicoterapia, mais compreendo que o antídoto da ansiedade – a expetativa de uma ameaça futura – é estar presente. O conselho que o autor do artigo dá vai nesse sentido. Se queres comprar um brinquedo ao teu filho, encontra um com o qual tu também queiras brincar. Assim estarás presente nas suas brincadeiras, e não há melhor educação do que os nossos filhos nos poderem ver e ouvir a interagir com o mundo.

Perante a minha ansiedade com o blog seguirei o mesmo conselho. Em vez de entrar na tormenta de pensamentos por achar que devia publicar mais artigos, irei aceitar o que realmente me apetece e permitir-me fazê-lo. Sei que neste momento me apetece escrever noutros formatos. É bom parar e perceber que não há nenhuma chita atrás de mim.

 

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About Rodrigo Dias

Como muitas das melhores coisas na vida, não estava planeado eu nascer. Apareci no mundo assim de surpresa e tive a sorte de ter uma família maravilhosa à minha espera. Cresci rodeado de amor, de valores e de experiências enriquecedoras. Como diria o Tim Minchin: “He’s a victim of his upper-middle class upbringing”

Cresci introvertido. Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim. Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno me ajuda a perceber quem sou, o que quero e para onde vou.

No caminho de me tornar pessoa sempre refleti sobre como não me tornar numa formiga humana. Dessa reflexão nasceram muitos projetos. O mais importante foi criar uma família com a Carla e tornar-me pai de dois mestres sábios que me trouxeram a compreensão de que ainda há muito por descobrir sobre mim próprio. Outro projeto importante foi decidir tornar-me terapeuta, depois de uma carreira profissional no mundo do desenvolvimento de Software. No mundo da terapia as minhas maiores inspirações são a Biossíntese, uma psicoterapia corporal desenvolvida por David Boadella, e o mundo dos palhaços, no qual tenho desenvolvido o projeto Oficina Clown com o meu grande amigo Ricardo Lapão.