Recreio. O Leonardo é ladrão. Numa jigajoga arriscada, tenta escapar-se de um polícia. Cara contra um poste. Cai no chão. O sangue jorra-lhe da boca. A professora toma conta da situação e ordena uma busca geral. O dente desaparecido é encontrado no meio da terra e é prontamente colocado num copo com leite. Por mero acaso, olho para o telemóvel. Mensagem do meu irmão: telefona-me com urgência. O meu coração dispara e temo o pior. Não é assim tão grave, mas o meu filho precisa de mim. Cancelo tudo o que tenho para fazer e saio a correr para a clínica. Tiro o telemóvel do silêncio. A Carla não atende. Chego ofegante. Ele aninha-se em mim e esperamos. Uma hora e cinco dentistas depois o dente está de volta ao sítio e o Leonardo tem um aparelho benfiquista. Enquanto voltamos calmamente para casa, eu percebo a maravilha que é estar rodeado de pessoas que se preocupam connosco. Uma professora, auxiliares da escola, amigos, tios, pais, o Leonardo é um privilegiado. Enquanto aguardo que o farmacêutico prepare o antibiótico, as lágrimas assomam-me aos olhos. A emoção é uma cena lixada.

A tensão também

Saímos do dentista com uma advertência: as próximas três semanas são críticas para que a recuperação do dente se dê o melhor possível. Leonardo tem cuidado! Não podes trincar. Não podes jogar à bola. Não podes dar saltos para a água. Não podes… A maldita da preocupação toma conta da vida familiar. Até parece o raio da música infantil “Naquela linda manhã”.

Quando um país está sob tensão, os ânimos aquecem, eclodem escaramuças, os políticos fazem declarações inflamadas, organizam-se paradas militares, instalam-se sistemas anti-mísseis e até se sabotam eleições. Na nossa família não é muito diferente. Os miúdos guerrilham, nós damos sermões, distribuímos castigos e eles tentam sabotar o poder. Quando uma família está sob tensão, as crianças são as primeiras a expressar os efeitos.

Foi o que aconteceu. Sem grande espaço para ser criança, os miúdos começaram a lutar mais acerrimamente entre si. Esse conflito escalou durante vários dias até que voaram pedras e o pai-monstrengo recorreu ao super-mega-castigo-nunca-antes-dado (tan-tan-tan-tan, diriam em voz de suspense as minhas sobrinhas):

Estão proibidos de ver desenhos e jogar tablet por tempo indeterminado!

Silêncio…O que é tempo indeterminado?

Não me deixei desarmar pela pergunta. É até quando eu e a mamã dissermos!

Reduzir o pulsar da vida

Eu sou bastante relaxado com a segurança dos nossos filhos. #soquenao (estou bué adolescente!) Por exemplo: quando tinham nove e sete anos deixei-os ir sozinhos desde casa até ao Pingo Doce, no quarteirão ao lado. Bem … na verdade, eu fui escondido do outro lado da rua a vigiar se corria tudo bem (um dia quando lerem isto eles vão descobrir!). Ou seja sou relaxado, mas não sou. Sempre que acontece alguma coisa inesperada, o meu coração aperta, o medo toma conta de mim e tento controlar tudo e todos. Isso não funciona lá muito bem com os meus filhos. Eles precisam de espaço para rir, chorar, correr, lutar, discutir. E quando estou tenso, não dou espaço para nada, especialmente para as suas emoções. Quando estou tenso, as minhas frases preferidas são:

Menos!
Já chega!

É uma reação exacerbada que traz uma sensação ilusória de segurança. É como se fosse necessário reduzir o pulsar da vida em meu redor. Sinto mesmo uma irritação por qualquer manifestação de entusiasmo daqueles que deveriam estar preocupados. Especialmente se eles forem os meus filhos.

A ver se uma metáfora ajuda a explicar a sensação

Imagina que entras numa montanha-russa. É enorme, colorida, tem loopings, água e até um túnel escuro. O comboio sobe, sobe, sobe até ficar suspenso lá no alto. Dali percebes a curvatura da Terra. É lindo. De repente desces a uma velocidade desenfreada. À tua volta, as crianças gritam e põem os braços no ar. A emoção é avassaladora. Tu sentes acima de tudo medo. Aquilo é um perigo! Quando o comboio começa a subir pela segunda vez, começas a ditar ordens: ninguém põe as mãos de fora da carruagem, ninguém abre a boca, ninguém… A cada ordem que dás, o comboio desacelera, até estacar ali no meio da subida. Já ninguém larga as barras de proteção. Já ninguém diz um piu. O comboio não avança, nem recua, mas tu sentes que está tudo sob controlo e que o perigo passou. Tentas relaxar, recostas-te e observas a vista. Só que dali do meio da subida não consegues ver nada de jeito. Então ouves alguém a choramingar e percebes que as crianças estão todas a olhar para baixo, com medo. Olhas também. No chão a vida continua. As pessoas passeiam e comem algodão doce. E tu ali preso num comboio cheio de crianças infelizes. Então começas a desejar sair de onde estás. Mas como? Como pôr o comboio outra vez a andar?

A vida acontece.

Apercebi-me que estava preso num sítio feio quando uma boa amiga me colocou o livro “Educar com Mindfulness” da Mikaela Övén nas mãos. Conheces o momento “Aha!”? O meu foi mais tipo “Ups!”. Entre muitas coisas, Övén explica como se pode ajudar a trazer maior consciência e empatia para os conflitos entre irmãos. Ela propõe que ensinemos as crianças a utilizar uma comunicação sem julgamento: quando isto acontece, eu sinto-me assim. É uma forma maravilhosa de explicar ao outro como nos sentimos, sem o julgar. Eu não andava a fazer nada disso. Andava só a zangar-me com eles à mínima perturbação.

Primeiro senti-me culpado. O drama espreitou: sou um pai terrível. Depois lembrei-me de uma coisa em que acredito e que no meio do stress tendo a esquecer-me:

A vida acontece. A minha responsabilidade enquanto pai é ser um campo organizador e seguro para que os meus filhos possam aprender a lidar com a vida.

Eu não pude impedir que o Leonardo partisse os dentes, nem posso impedir que algo parecido volte a acontecer. O que eu posso fazer é tornar a situação numa oportunidade para ele aprender a cuidar de si, enquanto nos tem a nós, pais, a guiá-lo.

De repente o comboio recomeçou a andar lentamente, a tensão reduziu-se e a emoção voltou a fluir.

Papá, já podemos ver desenhos?

Ainda não. O castigo estava a ter efeitos secundários muito saudáveis: passavam mais tempo juntos;  inventavam novas  brincadeiras; e liam muito mais. Por isso decidimos mantê-lo durante algum tempo. A diferença é que agora não havia tensão, havia apenas mais um facto da vida com o qual lidar.

 

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About Rodrigo Dias

Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim.

Um dia, durante um campo de férias, decidi que queria ser mais extrovertido. Então comecei a fazer as coisas que os extrovertidos faziam: falar à frente de muitas pessoas, abordar miúdas que me intimidavam e tentar entrar em discotecas metendo conversa com os porteiros. Maior parte do que tentei não correu assim tão bem, mas eu não desisti.

Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno que me ajuda a perceber quem sou e o que quero.

Hoje, tenho trinta e cinco anos, sou casado e pai de duas criaturas maravilhosas. Sou o responsável pelo bem-estar e produtividade de uma equipa com mais de setenta e cinco pessoas. Sou estudante de psicoterapia somática em Biossíntese no CPSB. E como alguém há pouco tempo comentou, sou um introvertido corajoso.