Os teus olhos são tristes, disseram-me um dia. Ah! Como a minha mente cognitiva desejou rejeitar essa acusação. Colocá-la no lixo da memória, onde milhares de conversas vagueiam perdidas para sempre. Eu só conhecia as minhas rugas de alegria, os rasgos radiantes na pele em torno dos meus olhos, e por mim estava bem assim.

Volvidos mais de quatro anos, lembro-me perfeitamente desse momento em que a tristeza dos meus olhos foi declarada. Foi como se dentro de mim houvesse uma máquina de Rube Goldberg, cheia de partes estranhas e sem nexo, que entrou em movimento. Aos poucos fui descobrindo o peso nas pálpebras, a pressão lacrimal e o aperto no coração. Afinal existiam sucalcos de lágrimas não derramadas. Afinal também havia tristeza acumulada.

“Nós não nos conhecemos realmente a nós próprios a não ser que consigamos sentir e interpretar as nossas sensações físicas; nós precisamos de registar e agir sobre essas sensações para navegar em segurança na vida.”, Bessel van der Kolk – The Body Keeps the Score

As sensações físicas… até há pouco tempo limitavam-se a dores, de burro, de cabeça, de barriga. O meu corpo era uma criança a clamar pela atenção de uma mente sentada numa poltrona, entretida com um jornal sobre o passado e o futuro. Foi preciso uma birra do meu corpo para que se iniciasse um novo diálogo e alguém me pudesse dizer:

Os teus olhos são tristes.

Assim começou a nascer uma nova sensibilidade para com as sensações e variações no interior do meu corpo. Comecei a cultivar a minha interoceção. Incluir na mente as sensações e as emoções é como reencontrar família há muito desaparecida. Há uma estranheza e uma incredulidade, de como se não fosse nada, mas que é tanto.

Hoje perguntaram-me: Como estás?

Sinto um peso nas pálpebras. A minha respiração está lenta. O meu corpo está pesado. Estou mais virado para dentro do que para fora. Há alguma tristeza, mas isso é ok.

E tu, como estás?

 

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About Rodrigo Dias

Como muitas das melhores coisas na vida, não estava planeado eu nascer. Apareci no mundo assim de surpresa e tive a sorte de ter uma família maravilhosa à minha espera. Cresci rodeado de amor, de valores e de experiências enriquecedoras. Como diria o Tim Minchin: “He’s a victim of his upper-middle class upbringing”

Cresci introvertido. Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim. Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno me ajuda a perceber quem sou, o que quero e para onde vou.

No caminho de me tornar pessoa sempre refleti sobre como não me tornar numa formiga humana. Dessa reflexão nasceram muitos projetos. O mais importante foi criar uma família com a Carla e tornar-me pai de dois mestres sábios que me trouxeram a compreensão de que ainda há muito por descobrir sobre mim próprio. Outro projeto importante foi decidir tornar-me terapeuta, depois de uma carreira profissional no mundo do desenvolvimento de Software. No mundo da terapia as minhas maiores inspirações são a Biossíntese, uma psicoterapia corporal desenvolvida por David Boadella, e o mundo dos palhaços, no qual tenho desenvolvido o projeto Oficina Clown com o meu grande amigo Ricardo Lapão.