Tenho doze anos e à minha frente estende-se um longo átrio. Há janelas grandes à direita e à esquerda, por onde a luz do sol entra timidamente. O meu destino fica do outro lado, mais de cem mosaicos quadrados brancos de distância. Estou sozinho. Sinto frio na barriga. Encho-me de coragem. Dou os primeiros passos em direção à saída e só consigo pensar no vazio que me rodeia. O átrio é tão grande! Quando dou por mim estou a correr. Menos de dez segundos depois chego ao outro lado, ofegante. Vejo, finalmente, uma pessoa e sinto-me acalmar. Não lhe falo. Na verdade finjo que está tudo bem, mas por dentro o coração ainda bate violentamente. É tão difícil estar sozinho.

Natura abhorret vacuum

Aristóteles acreditava que não era possível existirem vácuos na natureza, uma crença que viria a ser conhecida como “Natura abhorret vacuum” ou “a natureza tem horror ao vácuo”. Esta crença durou centenas de anos até que Torricelli demonstrou numa experiência que a resistência à criação de vácuo não era uma questão de horror, mas sim de pressão atmosférica. Lembro-me perfeitamente de reproduzir a experiência em Técnicas Laboratoriais de Física e da minha surpresa e fascínio ao descobrir que o ar também pesava em mim.

Afinal a natureza não tem horror ao vazio. E eu? O vazio assusta-me e sinto as garras da inexistência a roçarem-me a alma. Preencho a minha vida com atividades e projetos, até garantir que nunca estou só. Agarro no telemóvel para ocupar os segundos dentro do elevador. Que pressão é esta que me cria tanta resistência a simplesmente ser, no vazio?

A necessidade do vazio

Este tema tão existencialista surgiu ao ler recentemente um excelente artigo do Padre Nuno Amador. Diz ele, com toda a sua sabedoria:

“Devíamos levar mais a sério o vazio! O vazio é essencial como o silêncio na música[…]”

Penso imediatamente na música 4’33’’ composta por John Cage. São quatro minutos e trinta e três segundos onde o silêncio é levado a sério. Onde do silêncio emergem outros sons que estão sempre lá, mas nunca os incluímos. Os sons do público, do seu desconforto, do nosso desconforto.

“[…]como o espaço entre as partículas na organização da matéria, como a zona livre onde podemos circular.”

Penso nas bermas da vida e de como me meto nessas estradas serpenteantes montanha acima, onde não há margem para nada. Só se para no topo.

Sem vazio não há felicidade

Não terá sido por acaso que Epicuro, para quem o propósito da Filosofia era atingir a felicidade, discordava de Aristóteles nesta questão do vácuo. Segundo ele, o vácuo é o meio por onde os átomos se movem. Sem vácuo não há movimento. Sem vazio não há vida. Ainda o Padre Nuno Amador:

“Só um útero vazio pode ser fecundado, só uma terra limpa pode ser semeada, só uma tela branca está disponível para ser pintada, só um pulmão sem ar pode voltar a encher.”

Apercebo-me que entretanto o meu átrio encheu-se de pessoas, atividades, projetos, telemóveis, tablets, emails, redes sociais, notícias, artigos, séries, filmes, viagens, cozinhados … E que de estar tão cheio fica difícil encontrar espaço e silêncio para que possa sentir e ouvir os meus filhos. E é essa a minha maior necessidade, de momento, criar vazio na minha vida para que tal como o público na música de John Cage, o som dos meus filhos possa emergir. Obrigado pela reflexão, Amador.

Ah, e se quiseres ler o artigo do Padre Nuno Amador, aqui está o link: https://pontosj.pt/opiniao/da-necessidade-do-vazio/

 

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About Rodrigo Dias

Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim.

Um dia, durante um campo de férias, decidi que queria ser mais extrovertido. Então comecei a fazer as coisas que os extrovertidos faziam: falar à frente de muitas pessoas, abordar miúdas que me intimidavam e tentar entrar em discotecas metendo conversa com os porteiros. Maior parte do que tentei não correu assim tão bem, mas eu não desisti.

Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno que me ajuda a perceber quem sou e o que quero.

Hoje, tenho trinta e cinco anos, sou casado e pai de duas criaturas maravilhosas. Sou o responsável pelo bem-estar e produtividade de uma equipa com mais de setenta e cinco pessoas. Sou estudante de psicoterapia somática em Biossíntese no CPSB. E como alguém há pouco tempo comentou, sou um introvertido corajoso.