Conheces o desconforto das obras? Não encontrar nada. O pó por todo o lado. Não ter água quente. Foram assim os meus últimos tempos. Por fora, e por dentro.

Queríamos há algum tempo revolucionar as nossas casas-de-banho. Ganhar espaço para a família. Acabar com a banheira. Ter uma casa-de-banho social forrada a X-Men. Essas coisas, sabes? Não o quisemos fazer há sete anos atrás, antes de nos mudarmos, pois quando se trata de obras sempre achámos que há que dar tempo ao tempo.

Uma casa é um ser vivo

No início deste ano, sem que eu te consiga explicar porquê, concordámos que tinha chegado o momento. Talvez porque as crianças estivessem a ficar crescidas. Talvez porque já se passaram três anos desde o trauma da obra da cozinha. Talvez porque eu próprio estivesse a precisar de obras.

Começámos por pedir a ajuda da Boost Studio, que num hábil lance de tetris reinventou o espaço da nossa casa. Munidos de desenhos, contratámos o Sr. Faz-Tudo, que a 1 de julho entrou de martelo em punho e começou a demolir paredes. Rapidamente nos vimos enfiados numa casa sitiada, assombrada por plásticos fantasmagóricos e invadida por pó alienígena. E então, a frustração começou a surgir:

Porque é que não fizemos as obras todas antes de virmos morar para aqui?

Há falta de uma resposta sólida, sobra-nos uma metáfora. Uma casa precisa de inspirar e expirar. E nessa respiração vai se transformando, trocando de pele, construindo novos espaços, libertando velhas tralhas. Tal qual os seus habitantes. Se não torna-se numa coisa morta.

X-Files

Enquanto vivia sozinho sempre que havia uma mudança grande na minha vida, eu sentia necessidade de fazer alterações no meu quarto. Nem que fosse apenas mudar a cama de sítio (confesso que nunca mudei posters de bandas das paredes porque nunca os tive). Foi assim quando regressei de Erasmus. Foi assim quando comecei a trabalhar. Foi assim quando comecei a namorar com a Carla (nesse caso foi mais ela que fez a mudança).

Existe uma relação, estilo X-Files, entre o meu mundo interno e o mundo externo e é bidireccional. Como se estivessem sincronizados. O meu lado engenheiro diz-me que esta minha perceção é apenas uma noção enviezada numa tentativa tipicamente humana de tentar encontrar padrões. Talvez. Mas o meu lado psicoterapeuta, diz-me que mesmo que assim seja, se há uma necessidade de encontrar um padrão é porque alguma coisa está a acontecer que merece ser observada. O meu lado criança fica simplesmente maravilhado e sente saudades de ver os X-Files.

Se tentar seguir a linha de raciocínio do meu lado psicoterapeuta apercebo-me que estou numa fase de transição profissional. E estar em transição é como estar em obras.

Transições

Stanley Keleman, um psicoterapeuta corporal que influenciou grandemente a Biossíntese (a linha terapêutica que eu estudo) disse o seguinte sobre estar em transição:

“Eu chamo-lhe a ‘sala de espera’, à espera de que aconteça, à espera que as peças se juntem. Existe confusão, na medida em que está tudo de pernas para o ar. Quando eu e tu estamos nesse lugar, nós estamos num mar de memórias, sensação, desorientações, o passado, o futuro possível, o agora […] A partir da turbulência desta sala de espera, nós desenvolvemos os discernimentos e a visão que permitem a formação de novos comportamentos.”

Comecei o meu estágio clínico há cerca de três meses e sinto-me em obras. Entusiasmado porque acredito que no final do estágio terei uma nova casa interna, ainda mais personalizada. Mas também confuso, perdido e por vezes assustado com a responsabilidade. Quando paro para escutar o som das obras, apercebo-me de sons muito antigos. Apesar de tudo as fundações são as mesmas e por lá há muitas memórias e sensações que aproveitam estes momentos para me revisitar. E no meio da turbulência deparo-me novamente com as expetativas dos outros, com a minha necessidade de agradar, com a minha necessidade de provar que sou válido, com a minha necessidade de ser reconhecido. E a minha cena temida, esse fantasma que tem a mania de se esconder na canalização para poder passear por todas as divisões, teima em me sussurrar:

E se ser psicoterapeuta também não é a tua vocação!

O antídoto final para o julgamento

Felizmente nesta caminhada da vida descobri um recurso que é um antídoto eficaz contra o sempre presente julgamento da minha mente:

a partilha genuína desde um espaço de vulnerabilidade com alguém que não me julgue.

É como se os julgamentos fossem adolescentes rebeldes que buscam a resistência dos pais, para que se sintam vistos e validados. Ao não tentar mudá-los, nem calá-los e simplesmente abrir-lhes a porta e dizer ao mundo: aqui estão os meus pensamentos, são meus filhos e não tenho vergonha deles. É como se eles se surpreendessem, relaxassem e fossem dar uma volta até ao próximo momento de rebeldia.

Hoje as obras estão quase acabadas e começa a surgir a vontade de convidar as pessoas para a visitar. Talvez nos possamos sentar e conversar no quarto com vista para o coração.

 

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About Rodrigo Dias

Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim.

Um dia, durante um campo de férias, decidi que queria ser mais extrovertido. Então comecei a fazer as coisas que os extrovertidos faziam: falar à frente de muitas pessoas, abordar miúdas que me intimidavam e tentar entrar em discotecas metendo conversa com os porteiros. Maior parte do que tentei não correu assim tão bem, mas eu não desisti.

Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno que me ajuda a perceber quem sou e o que quero.

Hoje, tenho trinta e cinco anos, sou casado e pai de duas criaturas maravilhosas. Sou o responsável pelo bem-estar e produtividade de uma equipa com mais de setenta e cinco pessoas. Sou estudante de psicoterapia somática em Biossíntese no CPSB. E como alguém há pouco tempo comentou, sou um introvertido corajoso.