Aproxima-se o décimo aniversário da minha filha e mais uma vez vamos ter um bom grupo de raparigas e rapazes a dormir cá em casa. Dou por mim a revisitar o cansaço com que me costumo deitar no final destas festas. Depois de uma série de atividades, depois de dançarem que nem malucos e ainda verem um filme com pipocas, os miúdos teimam em não adormecer. Ficam na galhofa deitados em colchões insufláveis espalhados pela sala. E eu fico que nem doido a tentar recuperar porque na manhã seguinte há panquecas para fazer e uma casa para arrumar.

Este ano a idade dela passa a dois dígitos. É um marco que faz sentido porque nós gostamos de dar significados a coisas que não têm significado nenhum. (Se a numeração fosse romana, seria porque era o primeiro X). Não me estou a queixar, quer dizer, estou, mas não por causa dos marcos. Eu gosto de inventar razões para celebrar. Estou a queixar-me porque se avizinha uma festa épica com dez crianças que começa na sexta e só termina domingo depois de almoço. Estou a queixar-me porque acho que a festa tem de ser épica e isso sai-me do corpo. E ao aperceber-me que estou a queixar-me decido que desta vez quero fazer diferente. Desta vez quero respeitar os meus limites.

Respeitar os meus limites

O maior inimigo dos meus limites é a minha necessidade de agradar aos outros. E é incrível como essa necessidade toma conta de mim, até em momentos como festas de aniversário dos meus filhos. Quando começo a puxar o fio da meada subconsciente percebo que: não paro nem para ir à casa-de-banho porque não quero parar as atividades a meio porque não quero que as crianças percam o entusiasmo porque quero que elas amem a festa porque  quero que elas contem em casa que a festa foi espetacular porque quero que os outros pais me admirem porque preciso de me sentir especial e talvez assim não me sentir rejeitado. Desembrulhar a meada da minha loucura faz-me sentir ridículo.

Conhecer o deambular do meu sentir, dos meus pensamentos e das minha ações leva-me a recordar o que tenho de fazer para respeitar os meus limites.

Estar atento às minhas emoções. Assim, quando eu me começar a irritar porque o papel higiénico que é suposto fazer de alvo não pára quieto, eu posso parar, respirar e dizer internamente: está tudo bem.

Envolver as crianças na preparação dos jogos. Assim, em vez de me deitar uma hora mais tarde para garantir que tenho todas as  balas de papel para a fisga gigante impecavelmente dobradas, posso incluir a dobragem como fazendo parte do jogo.

Aceitar que eu não controlo se as crianças vão ou não gostar do que preparei. Assim, se não gostarem do filme que eu escolhi para elas verem à noite, podemos adaptar-nos na altura sem que eu me sinta frustrado.

Respeitar os meus limites é, no meu caso, abrir mão do controlo e dar prioridade ao que estiver a acontecer no momento, em detrimento do planeado.

O que aconteceu

Entretanto a festa aconteceu. O papel higiénico ficou parado no ar, como era suposto. Nem todas as balas de papel ficaram bem dobradas, mas uma delas ficou diferente e espetacular. Um terço das crianças desistiram do filme a meio e foram brincar para o quarto.

Enfim, aconteceram coisas e eu fui tentando estar presente, respeitando-me. Nessa noite deitei-me menos cansado do que em qualquer um dos anos anteriores e já tinha a massa das panquecas pronta a repousar no frigorífico. Foi muito bom ter sentido essa tranquilidade. As crianças estão mais crescidas e isso ajuda muito, mas eu também estou mais crescido e isso ajuda imenso.

Depois do almoço de domingo, à medida que os convidados se despediam, dei por mim a perguntar-lhes se tinham gostado da festa. Quando me apercebi do que estava a fazer, calei-me. O que eu queria mesmo saber era se a minha filha tinha gostado. Por isso perguntei-lhe. A resposta foi simples: gostei. Não me dando por satisfeito, insisti: mas adoraste, gostaste ou foi médio? Olhou-me com um sorriso embaraçado e repetiu: gostei. Depois encolheu os ombros e continuou a brincar, com um ar despreocupado.

Parar para sentir

É ao escrever o parágrafo anterior que me apercebo da minha insistência para que ela tivesse adorado a festa. Tento afastar os meus julgamentos. A necessidade de ser especial é minha e só eu é que posso cuidar dela. Então largo o teclado durante um momento para sentir… … Para lá da dicotomia “gostei”/”não gostei” sinto algo diferente. É admiração pela minha filha. Subitamente recordo-me de uma frase que a ouvi dizer aos amigos, várias vezes durante a festa: O importante é estarmos todos juntos e divertirmo-nos. Apercebo-me que para mim, isso, às vezes, é mesmo difícil. Simplesmente estar junto e divertir-me.

Se gostaste deste artigo, junta-te ao grupo de pessoas que acompanham de perto o meu blogue. Clica neste link e deixa-me o teu nome e email. Para te agradecer a confiança enviar-te-ei gratuitamente o meu conto sobre Black e a sua escolha imperdoável.

About Rodrigo Dias

Como muitas das melhores coisas na vida, não estava planeado eu nascer. Apareci no mundo assim de surpresa e tive a sorte de ter uma família maravilhosa à minha espera. Cresci rodeado de amor, de valores e de experiências enriquecedoras. Como diria o Tim Minchin: “He’s a victim of his upper-middle class upbringing”

Cresci introvertido. Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim. Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno me ajuda a perceber quem sou, o que quero e para onde vou.

No caminho de me tornar pessoa sempre refleti sobre como não me tornar numa formiga humana. Dessa reflexão nasceram muitos projetos. O mais importante foi criar uma família com a Carla e tornar-me pai de dois mestres sábios que me trouxeram a compreensão de que ainda há muito por descobrir sobre mim próprio. Outro projeto importante foi decidir tornar-me terapeuta, depois de uma carreira profissional no mundo do desenvolvimento de Software. No mundo da terapia as minhas maiores inspirações são a Biossíntese, uma psicoterapia corporal desenvolvida por David Boadella, e o mundo dos palhaços, no qual tenho desenvolvido o projeto Oficina Clown com o meu grande amigo Ricardo Lapão.