Uma das reflexões que tento fazer regularmente, enquanto pessoa e enquanto pai, é como encontrar um equilíbrio saudável entre a tecnologia e a humanidade. Se para mim é difícil encontrar este equilíbrio e dou por mim a desconectar-me do que está a acontecer à minha frente, porque é mesmo importante responder àquele comentário no WhatsApp, ainda mais desafiante é ser um co-regulador nesta questão com os meus filhos.

Felizmente o mundo está cheio de revelações e frases feitas e eu dei por mim a ler curioso as seguintes palavras inscritas nas costas de um dos empregados do bar dos gémeos em Carcavelos:

A tecnologia compra-se, a mentalidade educa-se.

Leio esta distinção como uma resposta de esperança para o receio generalizado de que a tecnologia corrompe os valores da humanidade. Ou seja, a tecnologia não é um mal em si, é um bem que se compra. É a mentalidade de cada um que vai influenciar o uso da tecnologia e essa educa-se. Não sei se é essa a tua leitura. Eu deixei de me surpreender com as minhas interpretações depois de ter estado quatro anos a tentar decifrar o slogan “Branco mais branco não há”. Como não há?, pensava eu. Branco mais branco é igual a branco. O que é que não há?

Bem, mas continuando, ler esta frase levou-me a querer partilhar algumas das conclusões a que tenho chegado sobre a relação dos meus filhos com os jogos eletrónicos.

A admirável nova realidade

Quando eu tinha seis anos, o auge em minha casa era um  ZX Spectrum 64. Lembro-me de acordar de noite, quando toda a família ainda dormia, e de me enfiar na sala a jogar Chaos: The Battle of Wizards. Os gráficos eram incrivelmente pobres quando comparados com os dos jogos atuais, mas isso não me impedia de me deleitar com o desafio. Joguei tanto esse jogo que acabei por estragar a cassete. Anos mais tarde lembro-me de jogar Carmageddon, um polémico jogo de corridas de carros em que se ganhavam pontos por atropelar pessoas. Era muito divertido, mas garanto-vos que nunca, em vinte e um anos de carta de condução, senti o impulso de o fazer na vida real. 

Eu joguei sempre muito, seguramente acima da média das crianças e dos jovens da minha idade, mas isso não destruiu a minha vida e hoje sinto-me feliz com o que o caminho que estou a percorrer. Ou seja, de alguma forma, eu encontrei (ou os meus pais encontraram) um equilíbrio saudável e funcional entre os jogos eletrónicos que tanto me seduziam e todas as outras coisas importantes na minha vida. Sinto a tentação de aplicar o que funcionou para mim na vida dos meus filhos. Mas não acredito em receitas. E sei que o meu mundo não é o mundo deles. No meu mundo não existiam telemóveis. No mundo deles, quase quatro milhões de pessoas assistiram à final do campeonato do mundo de League of Legends (um jogo eletrónico gratuito). Quatro milhões de pessoas a ver outras a jogar computador! Parece-me de loucos, mas é a realidade.

Um vislumbre

Então como posso ajudá-los a sobreviver na admirável nova realidade? Há uns anos tive um vislumbre. Estávamos em Londres, em casa de uma família querida do coração, quando o meu amigo me mostrou o mundo que ele e o filho estavam a construir há mais de dois anos, no Minecraft. Era uma cidade incrível, com uma escola, casas, até tinha uma caravela. Eram horas e horas passadas a olhar para um ecrã, mas com uma diferença, tinham-nas passado juntos. De repente senti uma vontade enorme de fazer o mesmo.

Essa oportunidade apareceu quando os tios ofereceram ao meu filho uma PS4. Um ano e meio depois de começarmos a jogar Minecraft em modo sobrevivência, na PS4, derrotámos o Ender Dragon. Isto provavelmente não te diz nada, mas para nós foi um momento épico de celebração entre pai e filhos. Derrotar o boss do Minecraft tinha implicado construirmos inúmeras estruturas (uma casa, campos agrícolas, um estábulo, uma arena de combate, um farol, uma linha férrea gigante), lutar contra infindáveis monstros e horas e horas no fundo de minas em busca de minérios, nomeadamente diamantes. Já te perdi, não perdi…

Este entusiasmo que eu sinto a jogar Minecraft com os meus filhos é parecido com o que eu sinto quando vamos para Monsanto jogar basket ou quando nos sentamos a jogar jogos de tabuleiro. Eu compreendi que a melhor forma de os ajudar a auto-regularem a sua relação com a tecnologia é eu envolver-me e jogar com eles, aprendendo os jogos deles. E porquê?

Ensinar dando o exemplo

Porque para mim também é difícil desligar mesmo que estejamos a ficar atrasados. A mim também me apetece continuar a jogar apesar de ter de ir fazer o jantar. Eu também sinto a tentação de me agarrar ao telemóvel para me entreter durante aqueles minutos de aborrecimento enquanto o jogo está a atualizar.

Porque me ajuda a não fazer da tecnologia um papão. Cá em casa chamamos tecnologia aos ecrãs (telemóveis, televisões, consolas, computador, etc…), mas na minha compreensão livros também são tecnologia e também podem ser um vício pouco saudável. Livros, instrumentos musicais, desporto, jogos de tabuleiro, tudo se pode tornar um vício que me aliena da realidade. A grande diferença é que os ecrãs são uma novidade e são muito mais viciantes.

Sentir a dificuldade que é resistir à tentação da gratificação instantânea que os jogos lhes trazem, permite-me ser mais tolerante, mas acima de tudo permite-me ter legitimidade sobre o que lhes estou a exigir quando digo que é hora de desligar. Acredito que para educar, primeiro é necessário compreender o contexto do outro. E para compreender é preciso experienciar. Senão não é educar, é forçar a cumprir regras. Não gosto quando dou por mim a dizer-lhes Não quero saber, é assim e pronto. Isso acontece, especialmente quando estou cansado e eles não me dão ouvidos. A minha frustração socorre-se da minha autoridade e eu ponho de parte a possibilidade da compreensão.

Desafio para este Natal

Estamos a entrar nas férias de Natal e isso significa duas coisas para muitas crianças: férias e presentes. Por isso quero-te lançar um desafio, que eu próprio irei fazer. Experimenta neste Natal jogar um jogo eletrónico com um filho, um sobrinho, ou o filho de um amigo. Experimenta simplesmente estar junto e jogar com essa criança a um jogo que ela goste. Se for um jogo só para uma pessoa, transformem-no de alguma forma num jogo colaborativo ou competitivo e vão alternando. Se for um jogo para vários jogadores ainda melhor. Se te ajudar, coloca um alarme com um tempo limite. Permite-te divertir e aprender algo novo com a geração desta admirável nova realidade.

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About Rodrigo Dias

Como muitas das melhores coisas na vida, não estava planeado eu nascer. Apareci no mundo assim de surpresa e tive a sorte de ter uma família maravilhosa à minha espera. Cresci rodeado de amor, de valores e de experiências enriquecedoras. Como diria o Tim Minchin: “He’s a victim of his upper-middle class upbringing”

Cresci introvertido. Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim. Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno me ajuda a perceber quem sou, o que quero e para onde vou.

No caminho de me tornar pessoa sempre refleti sobre como não me tornar numa formiga humana. Dessa reflexão nasceram muitos projetos. O mais importante foi criar uma família com a Carla e tornar-me pai de dois mestres sábios que me trouxeram a compreensão de que ainda há muito por descobrir sobre mim próprio. Outro projeto importante foi decidir tornar-me terapeuta, depois de uma carreira profissional no mundo do desenvolvimento de Software. No mundo da terapia as minhas maiores inspirações são a Biossíntese, uma psicoterapia corporal desenvolvida por David Boadella, e o mundo dos palhaços, no qual tenho desenvolvido o projeto Oficina Clown com o meu grande amigo Ricardo Lapão.