Papá, queres brincar aos “Pais e Filhos”? – perguntou-me a Sofia um dia quando acabou os trabalhos de casa. “Pais e Filhos”, a brincadeira clássica em que temos a oportunidade de experimentar os outros papéis dentro da família. Não me apetecia nada e disse-lho. Surpreendentemente ela foi-se embora tranquilamente. Era assim tão natural não me apetecer, que ela nem dava luta? Fiquei parado na cozinha, agarrado a uma chávena de chá, a digerir aquele momento.

Brincar é infantil

Deixar de brincar é capaz de ser uma das coisas menos inteligentes que nós adultos fazemos a nós próprios. É como se ao brincar eu estivesse a pôr em causa toda a maturidade que conquistei ao tornar-me adulto. Como se fosse infantil.

E isso é apenas parvo. Brincar não é infantil, é inteligente.

Carl Jung, o criador da psicologia analítica, escreveu um dia:

“O princípio dinâmico da fantasia é brincar, uma característica também da criança e que por isso parece inconsistente com o princípio de trabalho sério. Mas sem este brincar com a fantasia, nenhum trabalho criativo jamais nasceu. A dívida que devemos ao brincar com a imaginação é incalculável.”

Ao observar o desenrolar da vida das pessoas que me rodeiam parece existir uma relação inversa entre a brincadeira e a responsabilidade. Quanto mais responsabilidade eu tenho, menos espaço eu dou à brincadeira. Uma das observações que sustenta esta ideia, é que os avós brincam mais com os netos do que brincaram com os seus filhos. Claro que isto nem sempre é verdade. Há quem nunca resgate esta qualidade para o seu dia-a-dia. E há quem nunca a perca.

Eu tenho investido muito do meu tempo a resgatar a brincadeira para a minha vida, mas continua a ser difícil abrir mão da minha seriedade adulta e permitir-me entrar no mundo ridículo da imaginação. Há aqui uma resistência interna, difícil de nomear.

Brincar com adultos

Uma das conclusões a que cheguei nesta caminhada foi que é muito mais fácil para mim brincar com outros adultos do que com crianças. E esta conclusão é estranha e surpreendente. Acredito que isso acontece porque quando brinco com crianças sinto-me responsável por garantir que tudo corre bem. Esse controlo não é muito compatível com a liberdade que a brincadeira necessita para que a imaginação possa fluir livremente. Com os adultos é diferente. Eles são responsáveis por si e eu consigo-me desligar da minha necessidade de controlar (em parte).

Assim que escrevi a expressão “brincar com adultos” senti imediatamente o meu interior contorcer-se com os possíveis julgamentos de quem me lê. É uma expressão que soa ridícula ou com conotações sexuais. E isso é curioso.

Talvez o sexo seja o lugar onde maior parte de nós adultos brinca sem se julgar por isso. É uma área da nossa vida onde podemos ser marotos ou danados para a brincadeira sem que a sociedade nos acuse de sermos ridículos.

Mas não deveria ser a única área onde nos damos essa permissão. Áreas como a família, os amigos e o trabalho também têm muito a ganhar com a qualidade da brincadeira.

Há já alguns anos que eu faço parte de um grupo de pessoas na minha empresa que anualmente cria um filme para ser exibido na festa de Natal. Os filmes têm sido incríveis e são fruto da possibilidade de brincarmos com o trabalho. Sempre que alguém entra para a empresa é incentivado a ver os filmes anteriores e assim compreender melhor a cultura que temos construído todos juntos. No nosso caso, permitirmo-nos brincar tem tido um resultado valioso.

Brincar ou Jogar

Eu, agente Juan, tenho uma mensaje confidencial que deverei deixar num esconderijo secreto algures no jardim de Santa Bárbara na ciudad de Braga. Três pequeños espias portugueses perseguem-me com tecnologia avançada – walkie-talkies. No seré atrapado!

Jogávamos aos espiões nas ruas de Braga e claro que os meus filhos entraram em modo jogo e queriam ganhar. Mas aos poucos, e à medida que deixámos a brincadeira ganhar espaço ao jogo, foi-se tornando mais importante a curiosidade e a experiência. Quando isso aconteceu, até perder se tornou interessante e motivo de alegria.

A mensaje ficou comprometida e no final os pequenõs espias saíram vitoriosos, prontos para comer churros com nutella. Pagos aqui pelo Juan, claro.

Acredito que a distinção entre jogar e brincar é reveladora da nossa dificuldade. Nas palavras do Leonardo, com nove anos, esta é a diferença:

“jogar pode ser ou não ser uma seca, brincar é divertirmo-nos.”

Eu concordo com ele. Apesar de ambos os termos aparecerem no dicionário como sinónimos, eles são, na minha experiência, conceitos diferentes. Eu posso jogar e brincar, mas também posso jogar e não brincar e posso ainda brincar sem jogar.

Se para as crianças brincar é algo natural, para os adultos é estranho, quase artificial. Parece-me que uma das razões é que brincar não tem um objetivo, nem um fim onde chegar. Quando os meus filhos estão a brincar, eles nunca nos veem dizer: Pronto, já acabámos de brincar! É sempre ao contrário. Sou eu que digo: Parem de brincar e venham para a mesa. E eles param de fazer o que estavam a fazer, mas continuam a brincar na mesa.

Quando brincam, é-lhes fácil transportar essa exploração da realidade interna para outros fragmentos da realidade externa. Para nós adultos, esta exploração brincalhona é mais difícil. Talvez porque carregamos uma série de crenças que nos limitam as histórias que podemos contar. Talvez porque nos habituámos a um mundo estruturado onde é necessário atingir um objetivo.

Mas como costumo dizer aos meus filhos: ser difícil não é razão para deixar de tentar fazer algo.

Voltar a ser filho

Se eu tivesse aceitado brincar aos Pais e aos Filhos, e me permitisse ser o filho, provavelmente teria tido a oportunidade de compreender melhor como é estar nesse papel dentro da minha nova família. Eu só conheço a experiência de ser filho na minha família original. Acredito que essa experiência tem um valor incalculável para uma das funções mais importantes que tenho na vida – ser pai. Aqui fica o compromisso de desafiar a Sofia para brincarmos aos Pais e Filhos. Eu depois conto como foi.

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About Rodrigo Dias

Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim.

Um dia, durante um campo de férias, decidi que queria ser mais extrovertido. Então comecei a fazer as coisas que os extrovertidos faziam: falar à frente de muitas pessoas, abordar miúdas que me intimidavam e tentar entrar em discotecas metendo conversa com os porteiros. Maior parte do que tentei não correu assim tão bem, mas eu não desisti.

Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno que me ajuda a perceber quem sou e o que quero.

Hoje, tenho trinta e cinco anos, sou casado e pai de duas criaturas maravilhosas. Sou o responsável pelo bem-estar e produtividade de uma equipa com mais de setenta e cinco pessoas. Sou estudante de psicoterapia somática em Biossíntese no CPSB. E como alguém há pouco tempo comentou, sou um introvertido corajoso.